Desenhando uma calculadora de custo de viagem

Figma

Pesquisa

Design UX/UI

Liderei o redesign de uma feature subutilizada do app Trizy, o Calculador de Custo de Viagem. O que começou como correção de usabilidade virou um pivot de negócio: a restrição técnica que quase matou a feature acabou virando a semente do modelo de assinatura do app.

Resumo

Sobre o produto

O Trizy é um aplicativo mobile que auxilia motoristas de caminhão oferecendo uma interface simples para comunicação com empregadores e clientes. O app cobre agendamento de carga e descarga, negociação de frete, check-in em pátio e outras tarefas operacionais.

Sobre a equipe

Atuei como product designer, com apoio do time de Dados para analytics, do time de Desenvolvimento para integração do serviço, e da squad de Pesquisa para coordenar as sessões de teste. O time de product design utilizou o modelo Double Diamond, dividindo o processo em descoberta e entrega.

Meu papel

Liderei o design de produto da pesquisa à entrega:

  • Pesquisa: planejei e conduzi as entrevistas com usuários e as sessões de usabilidade que revelaram o descompasso entre expectativa do usuário e o que a feature efetivamente entregava.

  • Arquitetura de serviço: escopei a integração com a API de roteamento de terceiros e defini o contrato de requisição e resposta junto ao time de Desenvolvimento.

  • UX/UI: desenhei o novo fluxo de entrada, a tela de resultados, os estados de loading e erro, e a tela de paywall para o tier de assinatura.

O time de Dados forneceu o analytics original que sinalizou o problema de abandono. A squad de Pesquisa ajudou a coordenar as sessões de teste. O time de Desenvolvimento conduziu a implementação e o build de front-end.

Sobre a persona do usuário

Nossa base de usuários é composta por motoristas de caminhão com idade média de 42 anos. Para o Calculador de Custo de Viagem especificamente, o que importa é o contexto de decisão:

  • Motoristas calculam margem operacional para decidir se aceitam um frete. A diferença entre uma viagem lucrativa e uma que dá prejuízo pode estar em alguns pontos percentuais.

  • A maioria já tem um modelo mental de custo de viagem (combustível, pedágio, refeições, hospedagem), geralmente feito de cabeça ou no papel.

  • São céticos com cálculos automatizados e só confiam num número que conseguem destrinchar linha por linha.

  • Familiaridade limitada com interfaces cheias de formulário significa que cada campo extra custa taxa de conclusão.

Essas restrições direcionaram o desenho do formulário, o layout de breakdown dos resultados, e a decisão de mostrar custos linha a linha (combustível, pedágio, custos adicionais) em vez de apenas um total.

Discovery

O problema

O app Trizy já tinha um Calculador de Custo de Viagem desde o início, mas o analytics contava uma história estranha: o botão estava recebendo cliques, mas a maioria dos usuários não completava o fluxo. A feature não estava tecnicamente quebrada. Tinha alguma outra coisa errada.

A pesquisa

Abordamos o problema de abandono com dois métodos:

  • Revisão de analytics: confirmou que o calculador era um dos itens mais clicados no menu principal, mas só uma pequena fração dos usuários completava o fluxo existente.

  • Entrevistas com usuários e sessões de usabilidade: conduzimos motoristas pela feature existente perguntando o que esperavam versus o que receberam.

O padrão foi consistente. Usuários esperavam uma estimativa de custo automatizada baseada em informações da rota, não um caderno de despesas manual. Um motorista resumiu bem:

"Eu consigo fazer isso com uma calculadora. Eu estava esperando algo a mais"

usuário insatisfeito

Isso reformulou o problema: a feature não estava quebrada, ela era a feature errada para a expectativa que estava criando.

A solução

Expandimos a feature para entregar a experiência automatizada que os usuários de fato esperavam. A nova versão se conectava a uma API de roteamento de terceiros que recebia origem, destino, categoria do veículo, número de eixos, consumo de combustível e preço do combustível, e retornava distância da rota, tempo de viagem, custo de pedágio e custo de combustível. O usuário podia adicionar despesas customizadas (refeições, hospedagem, manutenção) por cima, e o app retornava o custo total da viagem em segundos.

Delivery

Esbocei o fluxo de integração com a API externa e alinhei o contrato de requisição e resposta com o time de Desenvolvimento. Após reuniões de alinhamento para resolver questões técnicas, o back-end estava operacional.

Para a UI, a prioridade era clareza. A persona não era tech-savvy, e o formulário tinha mais campos que a versão original. A densidade de informação precisava parecer digerível, não opressora.

A tela abre com origem, destino e paradas opcionais. O usuário então seleciona a categoria do veículo, já que o preço do pedágio varia conforme o tipo, e o número de eixos. Dois campos opcionais pedem consumo de combustível e preço do combustível. As últimas opções são a preferência de rota (mais eficiente, mais curta, evitar pedágios) e uma caixa de seleção para a viagem de volta.

Tocar no botão primário chama a API externa e navega para a página de Rota da Viagem em alguns segundos. A página de resultados mostra o mapa, distância, tempo de viagem e o breakdown dos custos (pedágio, combustível, despesas adicionais). O usuário pode alternar entre até três rotas alternativas para comparar os totais.

Decisões de interface

Algumas escolhas moldaram a nova UI:

  • Ordem do formulário por carga cognitiva. Origem, destino e paradas primeiro (alta familiaridade), depois veículo e preferências de rota, e os campos opcionais (consumo e preço do combustível) por último, para que o usuário pudesse submeter mesmo sem esses dados.

  • Defaults inteligentes. O app preenchia automaticamente o consumo de combustível com base no perfil de veículo do usuário e o preço do combustível com base em médias regionais, ambos editáveis. Reduziu fricção para motoristas que não andam com os números exatos na cabeça.

  • Resultados como breakdown, não como total único. Pedágio, combustível e custos adicionais recebem cada um sua própria linha. Motoristas não confiam num número único e grande, confiam num número que conseguem auditar.

  • Três opções de rota. Mais eficiente, mais curta e evitar pedágios. O custo de cada uma é mostrado lado a lado para o trade-off ficar visível.

  • Paywall enquadrado como upgrade, não como muro. Na terceira consulta gratuita do dia, um banner pequeno sinaliza o limite. O paywall propriamente aparece só na quarta tentativa, com os três resultados anteriores ainda acessíveis.

Fatores limitantes

A API de roteamento era um serviço pago. O app era gratuito. Sem um plano, o custo de cada consulta escalaria linearmente com o uso e corroeria a unit economics.

A liderança vinha pressionando o time a encontrar novas fontes de receita, e publicidade estava fora de cogitação. O Calculador de Custo de Viagem virou a porta de entrada.

Desenhamos um tier de assinatura que agrupava:

  • Consultas ilimitadas no Calculador de Custo de Viagem (usuários gratuitos tinham três por dia)

  • Navegador GPS

  • Cupons exclusivos e serviços de parceiros

Usuários gratuitos atingiam o limite diário naturalmente se usassem o calculador mais que algumas vezes por semana, que é o padrão real de comportamento de motoristas ativos comparando fretes. O paywall era acionado no momento de maior intenção: logo depois que o usuário preenchia o formulário e tocava em calcular a quarta viagem do dia.

Resultados

Nas primeiras semanas após o lançamento da nova funcionalidade, tivemos algumas centenas de usuários. Marcamos cada evento e botão para acompanhar adoção e identificar pontos de drop-off. O Calculador de Custo de Viagem virou um dos pontos de entrada com maior conversão para o tier de assinatura. Até agora, tivemos um número crescente de usuários com uma assinatura ativa do calculador de viagens e outros recursos premium.

Conclusão

Esse projeto mudou minha forma de pensar sobre design pós-lançamento. O dado que precisávamos para encontrar a oportunidade já estava lá, parado num dashboard de analytics que ninguém estava olhando de perto. A feature não estava falhando por má implementação, estava falhando porque ninguém tinha questionado se o conceito original batia com a expectativa do usuário.

Três coisas que levei desse trabalho:

  • Taxa de clique sem taxa de conclusão é uma armadilha. Um botão sendo pressionado não é validação da feature por trás dele.

  • Restrições podem ser o próprio design. O custo da API quase matou a feature, e acabou moldando o modelo de negócio.

  • Design de paywall é design de produto. Onde o muro fica, como ele é apresentado e o que o usuário continua acessando define se o upgrade soa justo ou punitivo.

Se eu fizesse de novo, investiria numa cadência estruturada de revisão pós-lançamento para que a próxima feature subutilizada seja pega em semanas, não numa revisão trimestral de analytics.

Matheus Gomes / 2025

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